Padrões de beleza - Catarina Gomes

Os padrões de beleza

O que torna um rosto ou um corpo atraente para o sexo oposto? "Os padrões permanecem", afirma a psicóloga do Hospital de Santa Maria, Rita Machado, "mas as razões são ancestrais". De acordo com dois estudos apresentados no 3.º Simpósio de Sexologia da Universidade Lusófona, os padrões de beleza privilegiam a simetria e, no caso da mulher, uma boa relação entre anca e cintura.

Para compreender preferências de atratividade entre sexos recua-se à evolução da espécie humana. Para Paulo Gama Mota, do Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, alguns traços considerados sexualmente atrativos, como a beleza facial, "revelam uma notável constância, independentemente da cultura ou época". Constata-se que existe ao longo dos tempos "uma fixação pela simetria", procurada tanto nos homens como nas mulheres. Por que razão isto se passa assim ainda não é ponto assente. Duas hipóteses permanecem: a simetria era associada a um bom estado de saúde ou existe um enviesamento da visão. Já a psicóloga Rita Machado debruçou-se sobre o papel da relação anca-cintura na atratividade feminina. "Os corpos que continuam a ser preferidos são os que têm a forma de uma ampulheta: cintura estreita e anca larga" – um padrão estético que se manteve independente das modas relativas aos pesos ideais.

As razões são ancestrais. O homem procuraria na mulher sinais de fertilidade que lhe assegurassem descendência; já a mulher procurava um homem forte porque lhe cabiam as tarefas que asseguravam a subsistência, como a ida à caça. Rita Silveira Machado afirma que estes padrões estéticos permanecem em pleno século XXI. As mulheres consideram mais atrativos homens com sinais associados à força física, ao poder, ao status hierárquico, prova de uma estabilidade que lhes permita dar segurança à descendência. "A atratividade física não é tão importante". Já os homens "têm padrões de atratividade física mais rigorosos que as mulheres", tendem a escolher parceiras mais jovens que tendem a ter uma relação adequada entre anca e cintura. No estudo que Rita Machado realizou junto de cem pessoas confirmou este padrão: tanto homens como mulheres consideram mais atrativas mulheres com uma dada relação anca-cintura; nos homens é maior quando se lhes pergunta que mulher escolheriam para uma relação de longa duração. "Numa sociedade em que se discute o direito à diferença, há coisas que são ancestrais e que permanecem." Estes são padrões que estão interiorizados em nós e que são marcas da evolução da espécie". "Houve respostas biológicas que se perpetuaram, são padrões que estão escondidos e refletem-se inconscientemente." A cirurgia plástica orienta-se por estes padrões, afirma a investigadora, referindo-se ao exemplo da cantora Cher, que retirou costelas para ter uma cintura mais estreita; nas cirurgias ao rosto o que se tenta corrigir são assimetrias.

Trata-se de uma possível leitura do que torna uma pessoa atraente, que vai beber à psicologia evolutiva, à biologia e à genética, mas o fenómeno da atratividade é muito mais complexo, reconhece a psicóloga. De acordo com Graça Santos, sexóloga dos Hospitais Universitários da Universidade de Coimbra, por mais que várias disciplinas científicas tentem decifrar a atração, o enamoramento e a paixão, nestes processos influem fatores biológicos, mas também civilizacionais, sociais, da individualidade de cada pessoa e da sua história de vida. "Há ainda muito de mágico e assustador, ainda bem que continua um mistério."

Catarina Gomes, Público, 2004-01-15